quarta-feira, 4 de outubro de 2017
Poema do mês de outubro
A esmola do pobre
Nos toscos degraus da porta
De igreja rústica e antiga,
Velha trémula e mendiga
Implorava compaixão.
Quase um século contado
De atribulada existência,
Ei-la enferma e na indigência,
Que à piedade estende a mão.
Duas crianças brincavam
À distância, na alameda;
Uma trajada de seda,
Da outra humilde era o trajar.
Uma era rica, outra pobre,
Ambas loiras e formosas,
Nas faces a cor das rosas,
Nos olhos o azul do ar.
A rica, ao deixar os jogos,
Vencida pelo cansaço,
Viu a mendiga – e ao regaço
Uma esmola lhe lançou.
Ela recebe-a; e a criança,
Que a socorre compassiva,
Em prece fervente e viva,
Aos anjos encomendou.
De um ligeiro sentimento
De vaidade possuída,
À criança mal vestida
Disse a do rico trajar:
- «O prazer de dar esmolas
A ti e aos teus não é dado;
Pobre como és, coitado,
Aos pobres o que hás de dar?»
Então a criança pobre,
Sem más sombras de desgosto,
Tendo o sorriso no rosto,
Da igreja se aproximou;
E após, serena, em silêncio,
Ao chegar junto da velha,
Descobrindo-se, ajoelha,
E a magra mão lhe beijou.
E a mendiga alvoroçada,
Ao colo os braços lhe lança,
E beija a pobre criança,
Chorando de comoção!
É assim que a caridade
Do pobre ao pobre consola;
Nem só da mão sai a esmola,
Sai também do coração.
Júlio Dinis
Nos toscos degraus da porta
De igreja rústica e antiga,
Velha trémula e mendiga
Implorava compaixão.
Quase um século contado
De atribulada existência,
Ei-la enferma e na indigência,
Que à piedade estende a mão.
Duas crianças brincavam
À distância, na alameda;
Uma trajada de seda,
Da outra humilde era o trajar.
Uma era rica, outra pobre,
Ambas loiras e formosas,
Nas faces a cor das rosas,
Nos olhos o azul do ar.
A rica, ao deixar os jogos,
Vencida pelo cansaço,
Viu a mendiga – e ao regaço
Uma esmola lhe lançou.
Ela recebe-a; e a criança,
Que a socorre compassiva,
Em prece fervente e viva,
Aos anjos encomendou.
De um ligeiro sentimento
De vaidade possuída,
À criança mal vestida
Disse a do rico trajar:
- «O prazer de dar esmolas
A ti e aos teus não é dado;
Pobre como és, coitado,
Aos pobres o que hás de dar?»
Então a criança pobre,
Sem más sombras de desgosto,
Tendo o sorriso no rosto,
Da igreja se aproximou;
E após, serena, em silêncio,
Ao chegar junto da velha,
Descobrindo-se, ajoelha,
E a magra mão lhe beijou.
E a mendiga alvoroçada,
Ao colo os braços lhe lança,
E beija a pobre criança,
Chorando de comoção!
É assim que a caridade
Do pobre ao pobre consola;
Nem só da mão sai a esmola,
Sai também do coração.
Júlio Dinis
Livros do mês de outubro
Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, junta vários estilos literários no relato de uma viagem de Lisboa a Santarém. Muito mais do que uma crónica de viagem, é sobretudo uma reflexão sobre Portugal do século XIX e um marco na literatura portuguesa. Publicada em 1846, a obra aborda a jornada a Santarém em diferentes planos, e, por isso, Garrett chamou-lhe “Viagens” e não “Viagem”. Para além do percurso físico, narra a história de quatro personagens que retratam o próprio país dividido por uma guerra civil.
Almeida Garrett (1799-1854) foi um poeta, prosador e dramaturgo português. Teve um papel importante como introdutor das ideias do Romantismo em Portugal. Passou a adolescência na ilha Terceira. Desde cedo manifestou inclinação pela literatura e pela política. Em 1823, Almeida Garrett segue para o exílio, em Inglaterra, devido à sua participação na Revolução Liberal do Porto. Em 1824, parte para a França e, influenciado por Shakespeare, começa a escrever poemas dentro do novo estilo. Em Paris, publica o poema “Camões” (1825), marco inicial do Romantismo português. Almeida Garrett viveu intensamente a vida política, sendo eleito deputado em 1845.
Este livro é uma coletânea de contos fantásticos, escritos para os netos da autora, e ”para todos os que queiram ouvir a lenda da Verdade – tudo o que não se vê e paira entre a Terra e o Céu.” Encontram A história da Lua, Os dois cabritinhos, O rouxinol e a borboleta, Primeira manhã, Segunda manhã, Terceira manhã, A história do Fiel, Quarta manhã, Quinta manhã, Sexta manhã, e A manhã do sétimo dia.
Maria Henriques Osswald nasceu no Porto, em 1893, e faleceu,
na mesma cidade, em 1988.Foi escritora e tradutora portuguesa. Em 1971, recebeu
o prémio Federal Service Cross, único prémio de mérito geral da República
Federal da Alemanha.
segunda-feira, 26 de junho de 2017
segunda-feira, 12 de junho de 2017
Poema do mês de junho
DISSERAM QUE HAVIA SOL
Disseram que havia sol
Que todo o céu descobria
Que nas ramagens pousavam
Os cantos das aves loucas
Disseram que havia risos
Que as rosas se desdobravam
Que no silêncio dos campos
Se davam corpos e bocas
Mais disseram que era tarde
Que a tarde já descaía
Que ao amor não lhe bastavam
Estas nossas vidas poucas
E disseram que ao acento
De tão geral harmonia
Faltava a simples canção
Das nossas gargantas roucas
Ó meu amor estas vozes
São os avisos do tempo
© JOSé
SARAMAGO
In Provavelmente Alegria, 1987
In Provavelmente Alegria, 1987
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